19 março 2005

amuos

As ruas da cidade grande escorregaram todas para o rio e ouviu-se um grande silêncio. Depois tocaram os sinos e todos acordaram. Foi um trabalho louco repescar todas as ruas. Não queriam vir, consta que se zangaram por ninguém lhes ligar, apesar de andarem todos de olhos no chão. Voltaram cheias de cor, lavadas. Pena foi os habitantes da cidade grande, não terem escorregado também, andam muito descoloridos a fingirem-se de pombas-gaivotas, mas as cores deles são outras.
Cada um deve vestir a sua própria cor para haver arco-íris…

18 março 2005

desenhos

O desenho de uma árvore é uma eternidade de linhas que se escondem na terra e se pintam no céu.
A que desenhei hoje fugiu-me do papel, tão ciosa que estava de fazer cócegas nas nuvens…

17 março 2005

tropeções

Tropecei no horizonte.
Linha irrequieta, esta que insiste em nunca se passear no mesmo local…
Atrevido, puxei-a com olhos-de-palhaço-criança-em-hora-de-recreio ,enrolei-a num enorme novelo-de-encantar e segurei-a com o olhar.
Não era de cristal esta bola-horizonte-em-tons-de-papoilas-que-chegaram-antes-das-andorinhas, era como... cabelo, de mulher que se ama, entre os dedos, em penteares de ternura…
Mas chegaram as papoilas, com ou sem horizonte, caído ou levantado, pouco importa.
Chegaram!
Vermelhas-sangue-de-sol-posto-em-terras-de-áfrica!
Devem ter vindo do mercado. Cheiravam a novidades, mas eram todas segredo ( podem e devem ler esta parte em sussurros murmurados, quase só olhares)…
Conto, porque o segredo era só delas, não meu…as andorinhas vêm mais cedo (já o sabíamos, disse-o a bola que não era de cristal), só que vêm pintadas de azul…
Fiquei a imaginar primaveras-com-andorinhas-azuis-e-papoilas-tagarelas…
Não, o céu não vai gostar de se ver invadido, assim sem aviso prévio, por outros azuis…
Vai ficar cheio de ciúme, porque vamos todos olhar para ele, mas não para o ver…

É o que dá quando tropeçamos no nosso horizonte…

16 março 2005

tonalidades ao som de uma trompete

Desenhei uma árvore a dançar com um trompetista e deixei-me voar nas cores de um sol tardio que se abraçou à terra e se esqueceu do universo, derretendo-se por inteiro naquele instante…

15 março 2005

talvez cegueira, talvez não…

Sinto-me só.
Não terrivelmente, nem angustiantemente...
Simplesmente só, ou serenamente (estado de alma, ou de sentir com que gosto de pintar os cenários do existir em jogos de absurdos e de silhuetas bailarinas).
No intimo, sinto-me só porque abandonado de memórias (aquelas imagens que nos moldam o carácter e que nos dizem o nome inteiro), como se de um momento para o outro apenas me restasse o Presente e os sucessivos instantes do" acontecer", condenado a reinventar os vazios que preenchem o (des)olhar. Uma espécie de torcicolo neurótico que me impede de olhar para o detrás de mim. Sensação inquieta de quem está em pontas de pés, de costas para um abismo e só lhe resta o defronte.
Talvez seja só hidropisia-de-caminhante-de-olhos-espantados que tudo arrasta, tudo limpa, talvez só cegueira, só cansaço, mas um homem só com instantes, é uma espécie de relâmpago, quando afinal, nasceu estrela, porque a luz da estrela é passado e a do olhar futuro…

14 março 2005

distracções

Ia distraído.
Vou sempre, quando me viajo no Universo, porque vou sem sentido a ouvir as árvores a ralharem-me o existir.
Esta que me falou hoje era um pinheiro-com-perfumes-de-alfazema, cheio de eternidade. Disse-me que ia no sentido errado, que o meu caminho era bem lá mais para baixo, junto ao Rio. Lá tinha todas as minhas sombras e cores que eu baptizei em menino…
Zanguei-me com ele, respeitosamente, por ser árvore apinhada-de-tempo , " caminho é onde o olhar nos leva, não os passos", disse sem convicção a olhar o chão não fosse ela fulminar-me com todo o seu peso de árvore-que-segura-a-terra-no-céu.
Ele amuou e eu também.
Fiquei assim, sem jeito de saber se o meu lugar era ali perto da serenidade, ou junto ao rio que não pára, sempre com pressa de se transformar em Mar…

12 março 2005

procura(s)

Quando procuramos, o melhor, é perdermo-nos por inteiro, só assim colocamos todo o sentido da descoberta na ousadia do querer encontrar…

In "apontamentos para um manual da serenidade", ou com nem sempre é fácil partir com a vontade de chegar…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...