26 março 2005

voares

Hoje não há histórias.
Nem todos os dias as têm, nem é necessário acontecer conto ou poema para o dia ser especial (ando a apurar o sentir para todos os dias serem únicos, mas tem-me levado uma eternidade),
o hoje,
foi um voar rasante num campo de girassóis que se vestiram todos de branco-cegonha.
Quase apetecia pintar o que o olhar sentiu; uma ovelha, sentada, toda debruçada de atenção, a ouvir a papoila ( não, uma, mas aquela que ali estava sozinha, como gota de sangue naquele enorme lençol de girassóis brancos), a ensinar-lhe como se deveria comportar perante um poeta que não sabia escrever e só sabia sonhar…
Talvez ainda lá estejam amanhã, pode ser que assim, afinal haja história, mas não hoje que o voar só tinha ir…

25 março 2005

sem carta de marinhar

Não sei o que me prende hoje a esta cadeira, entre paredes e estantes multicoloridas, talvez seja o fumo-aroma-cachimbo-que-afaga-um-gato-sem-botas, que me pensa, lento numa procura intensa da descoberta-do-que-me-trouxe-ao-existir
Vagueio na humanidade, como o sangue se navega nas minhas veias...
Quando um de nós parar, desistimos ( des-existimos) ambos. Mas o sangue, sabe o que faz, eu não, o que não me impede, apesar de tudo, de me percorrer na humanidade, mesmo sentado numa cadeira, a olhar vazios…

24 março 2005

preso...

Algures, em hora e dia indeterminado do nosso existir, surge ou surgiu um cavalo.
Faz parte do nosso imaginário, mil e uma aventuras, vividas no dorso de um cavalo.
Mesmo quem os receia, viveu um sonho com um cavalo, se não é verdade, imaginemos que sim e deixa de haver espaço a polémicas, que sonhos não têm discussões. São todos verdadeiros!
O meu cavalo, branco e vermelho, de crina-de-lã-trigueira, apareceu-me hoje em galope de vento…
Quis levar-me em corrida sem destino, com as suas patas-de-baloiço a voar, ao som do seu sininho…
Mas fiquei aqui, com as patas presas…
Tinhamos os dias desencontrados...que pena...

23 março 2005

gasto

Gastei-me inteiro no dia.
Gota a gota de mim.
Não me sobrou nada.
Houvesse inteligência, minha e não tentaria em teimosia desenfreada empurrar a montanha. Subiria a sua encosta e de caminho ainda veria o mar e sentiria a brisa a abraçar-me. Assim, estou sem o dia e sem forças, esvaído num nada, aterrador.
Vou fechar os olhos e procurar o sol…

In " Apontamentos para um manual da serenidade ", ou como a harmonia se deve procurar no ponto que absorve a menor energia, num total empenhamento do existir...

22 março 2005

uma mão cheia

Tenho a mão-cheia-de-chuva, e não sei o que fazer com ela, se bebê-la, se a largar no céu, na terra ou semeá-la nascente…
Ela bem tenta dizer-me qualquer coisa, mas não lhe conheço as palavras... julgo entender que “ caí do ninho...”, por isso desenhei-a pássaro e larguei-a a voar.

Não voltou, devo ter entendido bem o falar da chuva que se aconchegou na minha mão...

21 março 2005

instantes mágicos

Em silêncios,
movimentos lentos,
reflexos,
despes-te , de artefactos...
Olhas-te,
em ausência,
tua,
sensual...
Soltas-te dos enfeites,
um brinco,
outro,
um colar,
uma pulseira,
pedaços de ti,
pedaços de jóias esculpidas,
em lágrimas escondidas,
uma
a
uma,
soltam-se de ti,
nua.
Olhas-te em refugio,
teu,
só teu…
É momento mágico,
o teu por-do-sol,
quase erótico,
quase poema,
quase lua…

( a mulher tem dia a dia este instante mágico em que se entrega a uma metamorfose pura, num momento mágico só dela, é o instante de ser silêncio, de ser sua)

19 março 2005

amuos

As ruas da cidade grande escorregaram todas para o rio e ouviu-se um grande silêncio. Depois tocaram os sinos e todos acordaram. Foi um trabalho louco repescar todas as ruas. Não queriam vir, consta que se zangaram por ninguém lhes ligar, apesar de andarem todos de olhos no chão. Voltaram cheias de cor, lavadas. Pena foi os habitantes da cidade grande, não terem escorregado também, andam muito descoloridos a fingirem-se de pombas-gaivotas, mas as cores deles são outras.
Cada um deve vestir a sua própria cor para haver arco-íris…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...