08 abril 2005

nada

Não!
Quero ser, nada!
Hoje, não quero ser...
Tenho medo do poeta,
que se finge,
se pinta,
se inventa…
Pior que ser nada,
é este navegar,
sem sentido,
nesta fantasia lenta,
que mente
e
nos suja,
nos dobra,
queima,
e
esvoaça demente.
Não!
Hoje não vou enlouquecer,
vou andar por aí,
sem VER.
Sou abismo de mim,
na palavra do EU…
Quero Ser,
Nada,
sem temer…
Tirem-me o Vagabundo
Dispam-me D-E-L-E,
Tirem-me o Mar,
a gaivota,
tudo!
Levem todo,
num grito só,
mudo!
Mas devagar,
para não ficar nada no meu Ser…
Mergulhem-me no verde,
no azul,
no amarelo,
no branco e no preto,
sem pressa,
pintem-me todo,
esborratado,
engravatado,
não interessa,
e
soprem,
soprem-me todo,
Tudo,
pelo ar,
até ficar , nada.
Tudo muito bem apertado,
machucado,
Vazio!
Quero ser, Nada,
sem palavras
nem poesia…
Sossegado,
a deslizar sozinho pelo rio,
Hoje quero ser, Nada,
pássaro, sem assobio,
nevoeiro, sem maresia...
Ah! Nem o Eu me safa,
deste meu querer destemido,
de não ser barco,
nem vento,
nem cor,
nem gota,
nem fio
de água.
Nem janela sou,
nem papoila,
nem agonia,
nem pó,
Nada!
Não te escondas no EU, que até esse voo…

07 abril 2005

mar sem cor

Inundo-me de brancos e de lágrimas,
secas,
e desenho-as,
uma a uma,
transparentes.
Crentes.
Multidão sem voz
que caminha,
Vão em silêncio,
sem medo,
mas,
cada uma sozinha.
Fossem elas todas,
Um,
não haveria branco nem negro,
e lágrimas,
eram outras,
de alegria...

06 abril 2005

gaveta

Tenho uma gaveta cheia de violeta-quase-flor…
São pedaços de nada que viajam comigo,
para onde for.
É engraçada, esta minha gaveta,
porque afinal,
não tem nada…
Tem uma cor,
timida,
(res)guardada
Que parece dor…

afinal é para isso que servem as gavetas, mesmo as minhas que são desarrumadas, para (res)guadar, nem que seja um desenho de uma flor...

05 abril 2005

oiço...


Capto o silêncio da terra que se oferece em cores húmidas e que me fala pausadamente, (como se eu não lhe soubesse o falar),
conta-me os passos,
passados num eternamente longe.
Conta-me as viagens, as suas.
É terra navegante, esta que hoje piso e me fala dos passos pisados.
Foi amada, foi mãe vezes sem conta,
pisada e re-pisada também.
Mas conta,
conta-me,
cada grão,
cada nada.
Conta,
conta-me que grão só, não vale nada, só inteira tem história.
Oiço.
Oiço-a.
Oiço-me.
Em silêncio, no seu silêncio...

Vale do Sorraia - Março 2005

04 abril 2005

mar (és)



Deixem-me re-escrever o Mar, libertar todo este azul-esmeralda que há em mim, num abraço-labirinto...
Fundir-me, nesta névoa-de-azul-salgado e deslizar,
onda pelo ar
e...
lá no alto,
deixar de Ser e pairar-leve-só-sentir...

Mar(es) da Ericeira - Março 2005

03 abril 2005

ás voltas


"Moinho-me" na vida, com as velas,
todas,
a dançar...
Brilham ao vento,
no mar.
É moinho trigueiro,
que gira,
gira,
sem parar...
Fosse ele,
só vento, e não saberia a cor com que se pinta o ar...
Não,
não é azul,
nem cinzento,
nem verde,
é cor de onda,
de espuma,
de Mar...
Nem branco,
nem prata,
é cor do meu olhar...

Ericeira - abril 2005

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...