14 abril 2005

o pássaro

Passou um pássaro negro a esvoaçar-me meio louco à janela e a pintar o céu de gritos roucos. Parecia um piano de cauda, desconjuntado a tocar sozinho…
Chamei-o!
Disse que não me podia atender, que andava meio perdido ( meio-louco) à procura do olhar, não do seu, que o sabia bem guardado, mas aquele outro que tinha que mostrar à humanidade, antes do céu se pintar de estrelas, porque senão, não iria haver sonhos nessa noite.
Fora um desastrado, encantara-se por uma borboleta linda, de-cores-violeta-rosa e num acto tresloucado oferecer-lhe o olhar que os pássaros tem que mostrar à humanidade e a agora não havia nada que salvasse a humanidade. Ele que era o guardião, estava agora desgraçado…
Espera! disse eu aflito, surpreende-nos… só precisas de te sentir borboleta de cores-violeta-rosa, verás que ninguém dá pela troca, anda, anda aqui, que te pinto… o sentir, esse é contigo, mas as cores...
Não dá, tenho que A encontrar, não se pode enganar o sonho, essa é a grande diferença entre o sonho e a mentira…
Nunca mais o vi...
Só me resta esperar pela noite e ver de que cor se pinta o meu sonho, talvez tenha encontrado a sua borboleta naquele prado lindo vestido de papoilas que se esconde, ali ao pé do horizonte…

Um livro não tem letras...

tem almas que nos transformam o sentir…
Uma cadeia de literatura surgiu na blogosfera portuguesa - o ex-libris da tugosfera -por iniciativa da Lique que a recebeu de outros. A Moriana passou-me o testemunho confiando que eu lhe daria seguimento. Assim fiz.
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Queria ser um livro vagabundo que se passeasse na recolha de cada olhar, queria ser o sentir de cada folha, de cada história.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Fiquei pelo poeta, personagem, Alberto Caeiro.
Qual foi o último livro que compraste?
Titânia – Mário Cesariny (histórias inconsequentes, surrealistas em jeito de poesia).
Qual o último livro que leste?
Leio vários livros, mergulho-me em cada um, mas só termino um de cada vez…o ultimo a voltar à estante foi a Catedral Verde de João de Aguiar.
Que livros estás a ler?
Ai! Estou a ler uma estante…
Poesia: Poema continuo de Herberto Hélder; Todos os Poemas - volume I de Ruy Belo; Poesias IV José Gomes Ferreira: poemas de Deus e do Diabo – José Régio
Ficção: o Jardim das Delícias de João de Aguiar; O Nosso Reino- Valter Hugo Mãe
Reflexão (?): O Livro do Desassossego – Bernardo Soares. Este, a reler, porque se esconde e é como a primavera, tem sempre cores novas de cada vez que se re-olha.
Diários: Diário V - Miguel Torga
Banda desenhada:Leonard (n.º 35) Le Génie Donne Sa Langue au Chat-Turk; Julius Corentin Acquefacques – La 2,333e dimension - Marc-Antoine Mathieu.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Temos um problema de escolha, que se resolve facilmente, levaria apenas dois, os que me acompanham desde que leio com o olhar e que dormem junto pousados à minha mesa de cabeceira e que acordam ao ritmo das minhas insónias: poesias de Mestre Almada Negreiros ( porque tem a magia de me abrir janelas) e a Bíblia ( autores vários…), (Porque caminha...)
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
à Blue Shell, porque me acompanha desde o primeiro post desta aventura na blogosfera e que escreve com o sentir...
à Barca de lyra, que navega em mares revoltos de encontros e desencontros ( não tem tempo eu sei, mas confio).
à Nanne ( contos de Vénus), pela sua sensibilidade e porque olha do outro lado do atlântico espreitando-nos com carinho....

13 abril 2005

insistências

O Eu, espreguiçou-se, p-r-o-l-o-n-g-a-d-a-m-e-n-t-e a fingir-se dono do dia.
Sorriu-se, divertido com os azuis atrevidos que insistem em se fantasiar em Caravelas sem destino que teimam em se orientar só com o olhar...

12 abril 2005

a medida de cada um

Papá, papá diz-me, porque estou sempre a voar? Porque ando sempre a fugir-me? Diz-me papá que eu ando tão perdido…
O sonho, meu filho, não é fuga, é um sorriso da alma que nos fortifica o querer…
Mas papá, diz-me, então porque ando sempre tão triste, e só me sorrio quando me invento?
Tu inventas-te? Finges-te?
Não sei papá, mas as minhas asas são desenhadas….
Mas meu filho, tudo que é desenhado com o sentir, existe-te, porque é autentico…
Papá, papá, mas eu não sei o que fazer com o sonho...
Não faças nada com ele, deixa que ele se dissolva no olhar e verás que cada vez que isso acontecer, cresceste no teu caminho…
Toma as minhas asas, papá. Não as quero mais…
Não as posso aceitar, meu filho, cada um só pode voar com as suas próprias asas, não se empresta o sonho… Guarda-as com carinho, porque foram elas que te trouxeram até aqui.
Papá, papá diz-me, porque é que quando voo sinto-me sempre tão sozinho…se tu também desenhas-te as tuas asas e voas, porque nunca te vejo no meu voar…
O voar é o teu questionar, apenas te ensinei a acreditar nas tuas asas, se assim não fosse perderias toda a capacidade de as usar, porque elas só funcionam com o sentir, e esse meu filho tem a medida de cada um…

11 abril 2005

mutações al-químicas

Não tenho pertenças.
Apenas o sentir e as suas sombras são meus (sobretudo estas, que me acompanham para lá do sentir...).
Tudo o resto, atravessa-me o Ver em velocidades descompassadas …

In “ Apontamentos para um manual de serenidade” ou como aprender a utilizar um filtro al-químico ( química da alma) que transmuta a matéria em emoções. Quanto mais lenta for a passagem, mais intenso é o sentir, maior é a nossa posse, maior o nosso património (mesmo que traga sombras. Não há filtros perfeitos, mesmo sendo destes, que não consta terem controlo de qualidade por manifesta incapacidade de se encontrar “padrão aferidor…), ou como afinal está ao nosso alcance a transformação da matéria em (tes) ouro…

09 abril 2005

ousar

Tenho uma mania absurda de falar com as árvores.
Não sei a causa.
Talvez o seu olhar, silencioso e permanente, quase eterno que se transforma em sabedoria omnipresente-de-sombras-cúmplices …
As árvores são pastoras de sonhos.
Discretamente presentes, olham-nos em abraços de mãe.
São uma espécie de guarda zeloso que nos permite a dádiva da liberdade, mas que nos olham e nos apontam sentidos, enquanto nos abrigam na sombra…
Oiço-lhes os murmúrios que se escondem em mim, apenas e só, por estarem ali, naquele preciso espaço que nos cruza o acaso, a existirem da terra, das raízes, da luz e do ar.
Uma árvore, protege-nos o sonho e do sonho…
Em criança, subia ás árvores para as ouvir, lá do cimo.
Hoje oiço-lhes as raízes.
É nas raízes que está a vida, não nas flores.
As flores são obreiras da vida, mas são as raízes que as alimentam, e no entanto estão ali a suportar, todo o peso da existência, escondidas nos silêncios-de-luz…
As raízes-da-alma, (nossas) também estão escondidas e temos, vezes muitas, a ousadia de crescer sem as ouvir…
Hoje a árvore que se dança no meu jardim, disse-me, sem segredos, toda autoridade, para experimentar viver um dia inteiro sem tempo…” só assim te podes encontrar…”, “ deixa que se misturem todos os instantes da tua vida, como se fossem um mar”, “ não te esqueças de estar atento, e ver em que cor ele se transforma…
Tentei!
Devo ter feito tudo ao contrário!
Só me vi menino, a brincar com todas as cores ao mesmo tempo sem me preocupar em dar-lhes nome…
Vou tentar novamente, talvez encontre outros instantes que se passeiam no rio…

08 abril 2005

nada

Não!
Quero ser, nada!
Hoje, não quero ser...
Tenho medo do poeta,
que se finge,
se pinta,
se inventa…
Pior que ser nada,
é este navegar,
sem sentido,
nesta fantasia lenta,
que mente
e
nos suja,
nos dobra,
queima,
e
esvoaça demente.
Não!
Hoje não vou enlouquecer,
vou andar por aí,
sem VER.
Sou abismo de mim,
na palavra do EU…
Quero Ser,
Nada,
sem temer…
Tirem-me o Vagabundo
Dispam-me D-E-L-E,
Tirem-me o Mar,
a gaivota,
tudo!
Levem todo,
num grito só,
mudo!
Mas devagar,
para não ficar nada no meu Ser…
Mergulhem-me no verde,
no azul,
no amarelo,
no branco e no preto,
sem pressa,
pintem-me todo,
esborratado,
engravatado,
não interessa,
e
soprem,
soprem-me todo,
Tudo,
pelo ar,
até ficar , nada.
Tudo muito bem apertado,
machucado,
Vazio!
Quero ser, Nada,
sem palavras
nem poesia…
Sossegado,
a deslizar sozinho pelo rio,
Hoje quero ser, Nada,
pássaro, sem assobio,
nevoeiro, sem maresia...
Ah! Nem o Eu me safa,
deste meu querer destemido,
de não ser barco,
nem vento,
nem cor,
nem gota,
nem fio
de água.
Nem janela sou,
nem papoila,
nem agonia,
nem pó,
Nada!
Não te escondas no EU, que até esse voo…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...