01 maio 2005

pianos...vivos

Nunca tinha desenhado um palhaço apaixonado por um piano, abraçado entre os brancos-negros da melodia e o colorido do seu olhar...
De trompete, de violino, de pandeiretas e tambores,
muitas,
de piano,
nenhuma.
Hoje saltou-me um, no desenho, mas não lhe dei nome...
Um palhaço não deve ter nome.
Uns tiveram, Pierrot , Arlequim, mas esses não eram bem palhaços eram poetas, palhaços foram só as imitações que se teatralizavam em gestos premeditados do rir .
O meu não tem nome, é inimitável…

30 abril 2005

29 abril 2005

escultura

Esculpi um muro, em pedra de xistos molhados com brisa de mar, e espreitei …
Vi um campo enorme, com fim no horizonte em tons de verdes, vermelhos, amarelos, violetas e brancos, todo pintado ás pintinhas num desfocado de névoa…
Estranho muro este que se atou a um horizonte que se escondia no seu existir

In “apontamentos para um manual da inquietude”, ou como devemos ter muita atenção ao gesto, porque nele nasce e morre um outro mundo que lhe vive preso nas (inter) dependências do acaso...

28 abril 2005

quebra-cabeças

Inventei um quebra-cabeças para me desinquietar, o sol estava divertido, o céu no seu lugar, até as gaivotas se passeavam entre os horizontes…
Tudo indicava que hoje o desenho seria coisa viva, de cores quentes e traços sentidos, mas não, dei comigo a procurar a metade da minha alma.
O ponto exacto que a divide no meio de mim ( e a culpa é da Sophia “metade da minha alma é feita de maresia…”, que encontrou a sua).
Primeiro usei o numero de ouro, o tal das proporções e que nasceu com a vida, depois com o desenho e só mais tarde com o numero.
Perdi-me!
A minha alma não tem proporções, é desarticulada ( anda aos saltinhos só para me confundir…), por isso não lhe encontrei a metade, nem o terço, nem o um.
Já à noitinha resolveu serenar-me e segredou-me, brincalhona ” como podes encontrar a metade se ainda não me conclui no um?…o inacabado não tem metade, porque a metade cresce proporcionalmente com o um…"( ainda bem que não sou matemático, porque senão lá se ia outra vez a serenidade para a gaveta, na tentativa de formular a teoria do crescimento da alma).
Inventei um quebra-cabeças…
É bem feito, o dia ofereceu-te todas as cores para o teu quadro, escusavas de andar por aí a quebrar-te só para encontrares a tua metade…

27 abril 2005

conversas sérias

Entornei uma mão cheia de palavras sobre o papel, sem desenho nem limites ( papel-horizonte-de-bagos-de-arroz).
Falei com cada uma delas, sem lhes ferir susceptibilidades ou liberdades…
Cada qual sente o que sente e toma a forma que entender, mas era dia ( nunca devemos adiar a conversa, mesmo que seja, com as palavras que esvoaçam connosco o caminho do Ver) de sabermos, eu e elas se cada um cabia dentro de cada qual, na existência de cada um.
Foi conversa séria, mas delicada.
Quando se derramam todas as palavras que digam, com ou sem letras “AMOR”, é como pegar borboleta, se a “aprisionamos” pelas asas, transforma-se logo em pó(len?), mas se a deixamos pousar, nem que seja só no olhar, sentimos todas as suas cores por dentro*…


* "amar por dentro", ideia escrita e sentida por Ana ( in Ana e o tio Deus de Fynn - editora Ulisseia, reeditato pela Presença)
** sentires diferentes com a coincidência do mesmo olhar (tinta permanente)

26 abril 2005

fado

Cavalguei, noite dentro,
nas cordas de uma guitarra,
que me cantava, baixinho,
o choro de uma cigarra.
Toco a guitarra, sozinho
uma saudade triste,
dos tempos
em que me viste,
misturado na cidade.
Não é fado,
nem, poesia
é um querer sem tamanho
de estar sempre a teu lado.
Toco a guitarra sozinho,
na noite escura,
ao luar,
choro, com ela, devagarinho,
um sonho alado,
a rezar.
Soubesse eu cantar,
e ia por todo lado,
tocar esta dor,
que se desenha no ar,
num abraço negro,
da minha capa
a chorar…

( saudades...não há saudades sem fado )

25 abril 2005

voares

Guardo o dia,
este,
os outros também,
porque o sentir,
é esta essência de ser,
mais que palavra,
mais que o querer…
É ir,
sempre além,
como gaivota,
livre de nascer,
todas as coisas,
que só o pensar sabe ter…

(queria escrever sobre a liberdade, coisa singela, coisa simples, mas só me apetece voar...)

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...