07 junho 2005

os meus lápis

Hoje não desenhei, não encontrei os meus lápis de cor. Saltitaram todos, em viagem que não sei. Fazem-me falta, os lápis, porque as cores, tenho-as sempre, mesmo no escuro…principalmente no escuro. É no negro ( com ou sem sombras) que lhes dou o contorno do sentir e este só é intenso quando me cego.
Mas são os lápis que me brincam e me jogam a vida.
Os meus lápis não têm embalagem, por isso nunca os afio. Eles gostam de se empoeirar nos meus dedos ( é a nossa intimidade, os nossos sussurros, reduzidos ao mais simples, ao elemento, ao pó). A espessura do traço é com eles. Por isso gosto do desenho, ando sempre a adivinhar a forma e o peso do sentir. Todos os meus lápis me são pele por isso não ouso usar borracha...
São uma enorme responsabilidade, ter lápis que se alimentam do meu sentir. Vezes há, que me fogem e eu fico a perguntar-me se foram desenhar sozinhos a história que me descobriram nos dedos...
Quando conseguir decidir-me no nome que hei-de dar a cada um, deixo-os partir sem me interrogar…

06 junho 2005

mão

Abri a mão e tentei lembranças sobre as linhas que lhe gravaram os caminhos que a dobra.
Sorri…
Estão lá todas, as de menino e as outras.

Posso fazer o desenho!

De uma, a outra está ocupada com as cores que os olhos lhe dizem…

04 junho 2005

lentidão

Passeei-me lento entre amarelos secos…
O Tempo d e m o r o u – s e . . . agrilhoado no suor da terra... adiou-se, como que filtrado nos poros do existir.
Percorreu-me o corpo entre carícias e lembranças, prendendo-se, esquecido. Perdido na fantasia, num mundo onde se funde nas inexistências …

03 junho 2005

( re) encontros com a noite

A noite veio buscar-me!
Descolou-me suave do Eu e levou-me…
Tinha cousas para me mostrar, cousas outras, esquecidas, antigas de um menino a chorar que desencontrou os amores, quando incauto, tinha revelado aos grandes, segredos sagrados.
Diziam, soprados ,tais tesouros (mal guardados) alquimicos, que amava... ( sabemos nós que falamos da quimica da alma) , Não menina, mas flor-fada, exótica e rara que só tinha cor, no escuro das noites e que lhe contava, em assobios-de-azuis, aventuras de um menino-indio que sonhava, sozinho... Não cousas de soldados e heróis mas de bichos pequeninos que desenhavam o que sentiam, até cousas de amores…
A noite veio buscar-me e eu fiquei a ouvir o que os azuis me diziam, cousas outras que não vou contar, pois são para ouvir, só por quem entende o vento a falar…

02 junho 2005

sem dimensão

Abri um buraco,
com pá,
picareta e suor.
Fundo.
Vertical.
A perder de Tempo.
Negro.
Sem cor, nem dimensão (medível).

(muito fundo…)

Ao lado ergui até ás nuvens,
uma escada,
de corda.
Alta
Vertical,
de prumo,
mas de cor,
Trigueira (bonita, esta escada, a imitar fragmentos de Sol).
Sem dimensão.
Alta, até arranhar ( sim, claro, o céu)
ENORME!

(até ás nuvens…)

Depois,
depois subi.
Lá,
olhei para baixo.
Para o Buraco.
Visto do alto, um buraco é um buraco, plano, sem fundo...

( com a espessura de folha de papel...de arroz)

É como a Vida,
tanto faz a distancia que temos de Tempo.
Só o instante conta e se sente.
O fim perde-se da vista…

01 junho 2005

o instante de se ser um ponto

Quis desenhar uma palavra na areia da praia...
Uma única palavra que pintasse a emoção de ser um ponto do Universo.
Não encontrei palavra ( nem cor)…
Ficaram as pegadas, até ao instante da onda se espraiar,
livre…
Como o ponto…
Como o Universo…
Ficou o instante…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...