17 setembro 2005

desenho de um sorriso em Ré Maior

A guitarra colou-se ao corpo...
Percorre-me os dedos,
e
navega-me na pele
solta,
inquieta,
atrevida,
como um pássaro,
que se esconde na cor de uma flor…

Toca,
fado-negro,
em cinzentos azulados,
sentimentos,
rimados,
amados,
sem saudade,
sem lágrimas,
sem choro…

Sou bandeira sem mastro,
nem maestro,
ao vento…

Só a guitarra me ouve
e
fala,
em cada folha-que-me-liberta,
deste ulmeiro sem história…

Sou pássaro?
Sou corvo?
Que importa!

Voo-ausente, nesta melodia,
que bebe o sangue,
do homem-novo,
que renasce,
dia a dia…

Ah!
Fosse eu,
o que o olhar-me-sente,
e
a guitarra que se solta,
e se
desamarra,
quente,
nos dedos,
não era pássaro!
Nem colibri!
Nem rosa!
Nem gaivota!
Nem Arlequim!
Nem lembrança!

Era melodia sem fim,
a cantar por esse mundo fora,
desenhada num sorriso de criança,
que ri,
ao som da guitarra que chora…

16 setembro 2005

pinturas

Hoje,
desenhei o céu,
de uma cor só,
em aguarela viva,
dançarina-sem-tempo,
esquiva,
quase flor…
Não oiço o eco,
Não oiço nada…
Tenho a alma,
inteira,
esbatida na cor..
Só o girassol me foge,
em amarelos,
doces,
de-papoila-triste…
Não oiço o tambor,
não oiço nada,
Só a guitarra canta,
o poema que sentiste,
as letras que não escreveste…
Desenhei o céu,
de uma cor,
só...

Hoje…
Não oiço o vento,
Não oiço nada…
Tenho na minha mão,
entrançado,
o coração,
em laços,
em nó,
que chora baixinho,
por ver o céu,
de uma cor só…

15 setembro 2005

na dor, de querer SER

Tenho no palato o som amargo da terra que secou,
ferida,
gotejada em âmbares derretidos em noites cinza,
sem luar,
Guardo os gritos numa lágrima…
Uma,
só,
e
repinto-a gaivota com colar de horizonte,

Olho-a ao longe,
e
abraço
saltimbanco-palhaço
que alivia,
no grito,
a saudade,
de sentir a terra viva
sem dor,
a voar liberdade...

14 setembro 2005

memórias desenhadas sem tinta

Sonhei,
memórias
e
perdi-me,
no tempo,
na incerteza difusa,
de me ser,
inteiro
na
aguarela que pintei,
confusa,
antes do sonho…

há um homem dolorido,
escondido,
nas páginas do meu livro,
que se veste,
colorido,
aprisionado no destino
e
não voo…

Sonhei,
histórias,
letra
a
letra,
como chuva
desenhada num tempo
que não passou…
agrilhoado
sem esperanças,
em cada passo
que se assustou…

Sonhei,
lembranças,
que o tempo inventou…

13 setembro 2005

invisibilidades

Mastiguei um pedaço de luz
e
desenhei,
por inteiro, o Vazio
e
a nudez de um Rio, como se a memória adormecesse sem pesadelos, nem muros-caiados-de-silêncios…
Só as sombras eram brancas, frias, (des)luadas na noite que me dormia…
Despenteadas…
Bailarinas invisíveis,
que me consomem vampiras, o sentir e o Ver...

12 setembro 2005

eclipse

Guardei todos os ossos-da-memória, numa gota de vinho rubro, entranhado dos suores da terra e do Homem e fiquei suspenso a Ver o eclipse-da-nuvem que se escondeu entre o olhar a alma...

10 setembro 2005

autópsia de um sonho

Pierrot morreu!
Desbotado!
Dissecado em memórias infantis...
Perdeu-se nas metáforas,
sem cor nem sorrisos…
Morreu!
Assim, tal qual,
num quadro de Dali,
que nunca pintou Pierrots nem Arlequins…
Morreu, Pierrot,
derretido,
deitado fora entre as folhas secas do jardim…

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...