19 outubro 2005

conversares

Há acordares que nos morrem no dia e na poesia
e
o que sobra são cinzentos fingidos de sombra.

Todos os dias têm cores e sentires, escusas de insistir com essa tua tristeza, foge do poema que te arrasta na melancolia, deixa que as cores se aguarelem no caminho!
Não vês tu que elas estão lá?
Esperam-te!
Não as vês tu, a dançar?
Pobre de ti se te mascaras no tu que te foge do eu…
Deixa A poesia,
e
embebeda-te do dia.
Não A escrevas,

não A sintas,
não A pintes.
VIVE-A!
Ama-A !

Ai!
Quando o Ulmeiro me abraça e se põe a sussurrar,
não sei o que faço,
não sei que diga,
entrelaço-me,
adormeço
e
esqueço
o
Eu,
que não acorda
e
me fadiga…

18 outubro 2005

no caminho que faço

Sinto
o
passo que passo,
piso-o,
risco-o,
descalço,
como quem escreve,
febril,
e
bebe água que ferve...
Marco-o,
passo a passo,
como quem cinzela na pedra,
corpo de mulher,
ou
flor de Abril…
Sangro-o,
de passo em passo,
como rio que nasce,
e
morre nuvem,
longe do mar...
Sinto-o
no tempo que tomba,
como quem amassa o pão
como quem vai,
e
não para,
nem que caia
no chão…

Sinto, passo a passo os passos que passo no chão…

17 outubro 2005

outonos

Arvorei-me sob um Castanheiro, sem procura de cor, nem sombra.
Sentei-me apenas para O sentir e deixar que o tempo se extinguisse num nada e se transformasse em quietude.
Silenciámos segredos na cumplicidade da nossa fantasia, embalados nas folhas que se coloriam de Outonos…
O dia desbarulhou-se , só para não nos incomodar e ali ficamos a fingir-nos vivos em transparências de vento, até ao regresso do tempo…

13 outubro 2005

estar

Onde estás?
No eu!
No qual?
No teu!

In “apontamentos para um manual da serenidade” ou como o amor pode ser uma simbiose que nos equilibra o sentir e o existir, sem que se perca o olhar…

12 outubro 2005

intensidade

Dói-me,
a angústia de não-me-ser-inteiro-no-Eu, (como a calçada da minha cidade que se desenha nas sombras, entre os brancos-e-negros que lhe existem no Ser…)
Dói-me,
o sentir…

São dores do re-nascer…

11 outubro 2005

no desenho da calçada...

Passeio-me sem destinos, nas ruas da cidade grande, na cidade que me nasceu no Eu…
Procuro respirares e com eles o sentir da cor e do ir…

Sento-me,
onde os poetas sofreram, onde poetizaram a dor do existir e deixo-me abraçar, envolver, como quem pousa o cansaço no regaço de mãe.

Fico, entre a chuva e o vento…

Ah,
quando morrer quero ir com este vento e renascer na cor do rio-mar que me olha o horizonte.

Ah,
como queria, com desejo quase animal, ser o vento que leva a vela da nau, a bolinar…a bolinar no céu…

Passeio-me nesta cidade, onde a luz reinventa os cinzentos e as sombras em azuis, nas calçadas…

Sento-me,
onde os poetas choraram e deixo-me diluir na chuva que procura o mar e o fecunda…

10 outubro 2005

sou

Procuro nas nuvens que passam,
as lágrimas que verti,
olho-as ao vento,
disformes,
brancas,
negras,
e
procuro atento,
pedaços de mim.

Sou,
arqueólogo,
sem história,
que anda sem rumo, por ali.

Sou,
lágrima esculpida ,
azul,
verde,
carmim…
Ah, velas sem navio,
mar sem fim,
deixem-me ser nuvem,
palhaço-criança,
jardim...

Procuro no céu,
a ave migrante
que fugiu de mim...

Sou,
flamingo azul,
que anda por aí,
perdido,
réu,
navegante...
Ah,
Sou,
poema sem véu,
peregrino sem (a)deus,
pintor sem tela,
sem Tempo,
Livro
esquecido,
evaporado,
queimado-vivo…

Sou,
sem chama,
neste mundo,
letra só,
sem sentido!

não uso tempos, nem agendas ou instrumentos outros que meçam pedaços do existir. é jeito meu. por isso passar de um ano para o outro é cousa...